
O Início
Nós nos conhecemos na escola, em Fortaleza, adolescentes. Foi em meados dos anos 90.
Rafael Torres
O que lhes escreve. Quando eu era bem pequeno, meu tio e meu avô trocavam bossa nova pra mim. Eu adorava. Lembro com carinho. Mas só me interessei mesmo pelo estilo muito depois.
Até os 14 anos eu só ouvia música clássica. Sonhava ser maestro. Mas, nessa época, um amigo de escola chamado Bruno Cabral me apresentou a música dos Beatles e, sobretudo, do Chico Buarque.
Quando eu era bem pequeno, minha mãe cursou alguns semestres de pedagogia, de modo que eu fui seu experimento. Aprendi a ler aos 4 anos.
E ela se formou em música, me musicalizando a partir dos 6. Fiz aulas de piano por muitos anos. Violão, aprendi sozinho, assim como flauta transversa, clarinete e saxofone.
Já adulto, já Argonauta, ingressei na UECE, pois o Liduino Pitombeira havia terminado sua formação nos EUA e voltado ao Ceará. Montou o curso de bacharelado em Composição e acabou indo para o Rio de Janeiro, onde leciona na UFRJ.
Música erudita contemporânea me incomoda. Tem muito blá blá blá... Mas a do Liduino eu gosto.
Sou a pessoa-música. É o único assunto sobre o qual posso discorrer à vontade e com propriedade.
Escrevi um conto, do meu livro "Contos Medonhos e Desarranjados, Opus 1 - A Ilha Vermelha", em que tenho uma agradável interação com Johann Sebastian Bach. Leia aqui.
Raphael Haluli
Conheci o Hauly (seu apelido) aos 13 anos, na escola. Ele não era músico, mas a gente saía muito juntos. Calhou de nossa amizade acontecer no auge do nosso interesse pelos Beatles.
Posteriormente, ele começou a frequentar as minhas reuniões com o Bob. Comprou um baixo, fez aulas de flauta com a minha mãe, mostrou-se musical e, eventualmente, começamos a formar um trio. Era "Mira na Lira". Ele também cantava e compunha.
É dele a melodia de "Cinco Minutos", com letra minha inspirada em um conto de José de Alencar.
Posteriormente, nos anos 2000, mudou-se para São Paulo, onde permanece.
Ayrton Pessoa
Atendendo por Bob, ele já tocava violão e piano, quando o conheci. Eu ainda não me interessava pelo violão, associando-o àquelas rodinhas tocando Raul.
Eu era musicalizado: lia partitura, tocava flauta, flauta doce, clarinete, um pouco de piano e saxofone. Minha mãe é professora de musicalização.
Lembro que, ao conhecer o Bob, ele ficou interessado: "tu toca sax?". Na verdade eu já tinha trocado, mas não tinha um. Para quem toca clarinete, saxofone é mole. Tanto que, quanto adquiri dois (um alto e um tenor), gravei, sem problema, por exemplo: "So Many Nights" (minha) e "Opereta de Casamento" (Edu Lobo e Chico Buarque).
Nós nos conhecemos aos 15 anos, fomos parar na mesma sala de aula. O violão do Bob era diferente. Não tinha nada de Raul. Bob era o homem da bossa nova. Me emprestou o livro "Chega de Saudade", de Ruy Castro (que li avidamente) e me incutiu a vontade a tocar violão e cantar. Aprendi sozinho. E, especialmente, a compor.
No início compúnhamos por imitação. Minha mãe tinha vários Songbooks do Almir Chediak, como os de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Noel Rosa, Edu Lobo etc. Depois eu comprei os 4 do Chico Buarque, que eram caríssimos para um adolescente na virada do século.
Aprendemos os acordes dissonantes, mas, de maneira mais importante, sua utilidade. Até hoje eu confiro se a harmonia acata aquela melodia. A dissonância, quando usada em vão, pode tornar a música ininteligível. Bem usada, abre caminhos e intuições.
A sensibilidade musical do Bob é inexplicável. Eu dou meia instrução e ele faz mágica ao piano, por exemplo. Ele não é filho de músicos, como eu. É uma força da natureza. Aos 17 já tinha composto "Café", "Lembranças", "Plantaria" e "O Amor de Margarida For".
Aos poucos fomos aprendendo a compor de maneira mais independente. Ainda imitando, mas a nós mesmos. Evidente que, até hoje, eu faço músicas que são claras menções às do Chico, do Edu, do Tom, Caetano, Gil... "Flores na Moringa" é uma que eu considero Caetano/Gil; "Choro Dela" e "Manual da Leveza" é Chico; "Miudilha do Beijo" é Tom. Não estou dizendo que são tão boas quanto as deles, mas que parecem. Minha "Cataventos" é claramente inspirada em uma música do Bob. Um maracatu chamado "Caxitoré"
Sobre o Bob, é impossível explicar o tamanho da influência musical que ele me deu. Ainda hoje é meu acompanhador favorito, além de ser aquele que mais gosto de acompanhar.
Após a menopausa dos Argonautas, nossas músicas se tornaram bem diferentes: eu me mantive em um estilo mais tradicional, acústico, enquanto o Bob voou para os teclados.




Alan Mendonça
Uma coincidência crucial foi que, na época em que nos conhecemos, a irmã mais velha do Ayrton (Bob, daqui para frente), Cymara, começou a namorar com um poeta chamado Alan Mendonça. Ele nos entregou, descompromissadamente, toneladas de poemas para musicar. Nossas canções são os primeiros poemas dele que viraram música. As primeiras foram "Plantaria" (do álbum Jangada Azul) e "Café", com o Bob. Depois, "Cataventos" (de Interiores) e "Flores de Maio" (Jangada Azul), comigo.
Devemos ter algumas dezenas de parcerias com ele. Muitas foram gravadas na nossa discografia oficial, como "Interiores Nº 2", "Canção para João de Despedida", "Flores de Maio", "De Volta ao Começo, "Plantaria", "Cataventos" etc.
A poesia de Alan tem uma peculiaridade inominável. Ela parece sair da boca de um caboclo iletrado, mas genial, com a voz do povo do Brasil. Talvez essa poesia tenha dado origem à Música Mansa.

Alencar Júnior
Uma coisa foi fundamental na formação do grupo. Um amigo da minha mãe estava montando um estúdio. E vimos, na época, um anúncio para o "Concurso Internacional John Lennon". Fizemos a música "Breeso", gravamos e não deu nada. Mas passamos a gravar tudo no Alencar, que se dizia dono do maior estúdio da Aerolândia. Estávamos no começo, mas, aos 16-17 anos, tínhamos um enorme potencial.
Ouçam alguns exemplos: Valsa da Rosa Perdida (Ayrton Pessoa e Alan Mendonça), Cigarro de Palha (Ayrton Pessoa e Alan Mendonça), Lenda Brasileira (Rafael Torres) e Cais do Porto (Ayrton Pessoa).