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Literatura

Em 2022, Rafael Torres lançou seu primeiro livro, chamado "Rubi Boto - Letras de Músicas e Outros Escritos". O livro contém todas as letras de Rafael entre os 15 e os 41 anos de idade, além de microcontos e um guia sobre gravações de música clássica.

Rubi Boto

"Este é um daqueles livros que, quando você termina de ler, deixa escapar um breve suspiro de satisfação. O livro é delicado e ao mesmo tempo irreverente, com temas doces de lembranças de infância e também críticas espirituosas de acontecimentos atuais. Aqui você vai encontrar, desde letras de lindas canções a diálogos entre as personalidades do inconsciente do autor. Rafael Torres, além de compositor e músico, nos mostra aqui que é também um talentoso escritor, que sabe brincar com as palavras, fazendo uso de diversos artifícios que demonstram sua apurada maestria e domínio da língua portuguesa."

Contos Britânicos

— Margaret?

— Sim, Dorothy?

— Observe! Não é aquele Argonauta, o Rafael?

— Blimey! É mesmo ele!

— Não é peculiar?

— O quê, querida?

— Ele não tem metade do porte que lhe atribuía!

— Oh, Dorothy! É tão venenosa!.

 

 

— Margaret?

— Sim, Dorothy?

— Acho que devemos admitir que estamos perdidas.

— Imagine só! Eu sei perfeitamente o trajeto para Kensington.

— Não é Kensington que me preocupa.— Oh, Dorothy! É tão pessimista!.

 

 

— Margaret?

— Sim, Dorothy?

— Quando vai finalmente se livrar de Maximilian?

— Não compreendo! O que há de errado com Max?

— Seu queixo é por demais proeminente, se é que me entende...

— Mas isso é nonsense!

— Além disso, Mildred e as meninas têm comentado...

— O quê?

— Ele tem más companhias!

— Mas o que há de errado com Wilfred e Jeremy?

— Verrugas e um nariz notável.

— Chega, Dorothy! Sua terapia com o novo analista espanhol não serve de nada?

— Estebán? Com aquele cheiro terrível de tabaco?

— Oh, céus! Você é incorrigível!.

 

 

— Margaret?

— Sim, Dorothy?

— Tenho a impressão de que a última opereta de Arnold foi mal sucedida.

— Ora, não é uma questão de achar. Ou ela o foi ou não. E, nesse caso, detesto desapontá-la, mas foi muito bem sucedida.

— Sim, Covent Garden esteve insuportavelmente apinhado por semanas. Mas achei a obra um tanto...

— Sim?

— Silly.

— Mas por Deus! Nada é capaz de agradá-la?

— Claro que sim!

— Dê-me um exemplo convincente!

— A penúltima opereta de Arnold. Sobre o trágico caso com as irmãs Totty. A selvageria, o suicídio... É simplesmente encantador.

— Dorothy, você é hopeless! A opereta era sobre o Brasil, não sobre as irmãs Totty!

— Ah, que desapontador! Achei que o Brasil fosse uma metáfora.

Vozes

VOZ 1: ... não pode-se...

VOZ 2: Ei! Não pode!

VOZ 1: O quê?

VOZ 2: Não pode-se.

VOZ 1: E o que é que pode?

VOZ 2: Não se pode.

VOZ 1: Peraí. Recapitulando. Isso pode?

VOZ 2: Não se pode?

VOZ 1: Isso.

VOZ 2: Pode.

 

Etc. etc....

 

VOZ 1: Hoje eu vejo... Todo esse tempo eu desprezei e fiz mau juízo de você..

.VOZ 2: Sério?

VOZ 1: Claro que não, idiota!

 

Etc. etc....

 

VOZ 1: Acho linda essa frase: acho linda essa frase.

VOZ 2: Que frase?

VOZ 1: Essa. Acho linda essa frase.

VOZ 2: Peraí. Essa frase?

VOZ 1: Que frase?

 

Etc. etc...

 

.VOZ 1: Imagina uma praia.

VOZ 2: Ok.

VOZ 1: Imagina aí!

VOZ 2: Tô imaginando.

VOZ 1: Não tá, não, ora! Eu saberia se você estivesse!

VOZ 2: Ai, isso é um saco. Eu queria ter independência!

VOZ 1: Não pense em nós como dois, mas como um só.

VOZ 2: O que aconteceria se a gente se separasse?

VOZ 1: Simples: o Rafael teria dupla personalidade.

VOZ 2: Hahahaha, ainda mais essa!

VOZ 1: Bom, enquanto seu sonho não se realiza, eu fico sabendo tudo que você pensa.

VOZ 2: Ah é? E em que eu tô pensando agora?

VOZ 1: Assim não vale! Cê tá bloqueando.

VOZ 2: Vai, bonitão das tapiocas!

VOZ 1: Para com isso, rapaz!

VOZ 2: Rapaz não. Meu nome é Brigitte.

VOZ 1: Vai te catar!

 

Etc. etc...

VOZ 1: ... e a cidade ficou tão grande que... que... Tô sem ideia. Diz aí.
VOZ 2: Tão grande que houve um evento de extinção em massa em alguns bairros e outros nem ficaram sabendo.
VOZ 1: ... Cara, você é bom, mesmo!


Etc etc...

VOZ 1: Eu acho que o Rafael é um imbecil que evoluiu.
VOZ 2: Mas um imbecil evoluído é mais imbecil ainda ou menos?
VOZ 1: Fica no ar...
VOZ 2: Vai encher o saco de outra pessoa!


Etc etc...

VOZ 1: Você falou "assumir" no sentido de "presumir".
VOZ 2: Oh, não! E agora? Como prosseguir vivendo?
VOZ 1: Você acha que está sendo irônico?
VOZ 2: Espera aí, como assim, "acha"?


Etc etc...

Notas de um Pessimista

– Se você tem 23 horas convenientes num dia, vão te solicitar na 24ª.

 

– Se chamarem por ti com voz de raiva, pode ir tranquilo, que não é nada. Mas se chamarem despretensiosamente...

 

– Gosta de ouvir um disco de vinil? Seu celular haverá de apitar em incrível sincronia com a agulha descendo.

 

– É músico e quer ser escutado? Amigo, esquece isso. Vá escrever um livro. Que também não vai ser lido.

 

– No dia em que alguém muito importante te ligar, vai ser pra pedir o número de outra pessoa.

 

– Então você escreve poesia... Os teus melhores versos, alguém já os escreveu, e, provavelmente, com mais categoria.

 

– As pessoas percebem que a maior parte do tempo você está tentando se safar de uma conversa.

 

– Você vai passar muito tempo querendo, muito tempo tentando e sempre vai conseguir. Mas vai passar pouco tempo desfrutando.

Contos Escabrosos e Desarranjados, Opus 1 - A Ilha Vermelha

Os Contos Escabrosos e Desarranjados são todos interligados. Deveria se chamar romance em forma de contos. Ou, talvez, contos em forma de romance. Meio de terror, meio fantásticos, os contos não aparecem em uma ordem que o leitor deva seguir. Algo é certo: quem o ler, se enxergará nas suas páginas.

Conto a Respeito de Euclides

Era impressionante que Euclides soubesse exatamente como caíra o avião, mas não soubesse como chegara àquela terra. Estava enterrado, só a cabeça sobrando para fora. Não podia se mexer. De repente a areia começou a se mover, fazendo movimentos ondulantes, e praticamente o catapultou. Foi jogado com muita força para frente. Sorte que não tinha nada lá. Estava inteiro. Até os óculos. E toda a roupa do corpo. Notou seu boné vermelho e preto no chão, coberto de areia... “ta que pariu!” Não havia nada mais.

 

Aliás, tinha, sim. O xale. O que compara para sua mãe. Tinha chamado a atenção de Euclides na lojinha do museu. A moça dissera que era um fino artesão de Lisboa. Quem sabe ela aceitasse como pedido de desculpas... Ou não. Talvez fosse melhor para ela se ele tivesse morrido na queda... E logo esse xale sobrevivera à tragédia?

 

Euclides estava seco e o xale, também, o que era um pouco estranho. Olhou em volta. Ilha deserta? Nada indicava que não ou que sim. Ele podia estar em pleno continente, a metros de alguma casa com piscina.

 

Opa! Não, não era ilha deserta mesmo. Logo à frente havia um poço. Um belo e humano poço, com balde e cordinha. Ele estava com sede. Buscou e bateu a terra do boné, caminhou sem dificuldade até o poço, desceu o balde e o levantou, pesado de água. Doce. Quase gelada! Sorveu beirando à felicidade.

 

Felicidade que passou quando a memória foi clareando. Que acidente infeliz! Lembrava-se de alguém na cabine comentar que devia estar vazando combustível. Estranho... Lembrava-se de o avião ter pousado na água e quase imediatamente começado a afundar. Ele estava ao lado da porta de emergência e simplesmente a abriu e saiu. Euclides não queria lembrar, mas havia passado por cima de um monte de gente para chegar até a porta. Lembrava-se de, no mar, ter chamado por alguém e da frustração intensa que sentiu quando viu um corpo virado pra baixo, sem vida... Euclides soltou um grito, quase um uivo, e então só lembrava do branco. Nada.

 

Pensando agora, nem conseguia lembrar por que tinha ido a Portugal. Tinha ganho a viagem? Isso. Tinha ganho em uma promoção do shopping center. Fora sozinho? Não lembrava, não lembrava nada, tudo estava turvo.

 

Acordara ali, uns bons 30 metros de areia entre si e o mar e vizinho a um poço.

 

Mas também era só isso. O poço, ele, xale, boné, mar, areia, óculos e uma densa floresta verde, de altas árvores e sem palmeiras saindo da areia. Ele não estava nem um pouco cansado, tinha que fazer alguma coisa.

 

Então, qual era o problema de Euclides? O problema era que ele era totalmente desorientado. Se entrasse demais na mata, não saberia voltar para aquele ponto específico. E aquele ponto específico tinha água.

 

Andou só um pouquinho. Só uns 20 metros mata adentro. E se sentiu mal. Não era medo, era uma coisa mais forte. Era a sensação de perigo. Alerta. Ele só viu mais árvores. Voltou, resolvido a ficar ali mesmo. E, na volta, ainda achou o que comer. Um iguana dando sopa. Não gostava muito de répteis, mas era o que tinha. Levou folhas, gravetos e voltou para o poço.

 

O que Euclides fez para sobreviver não será abordado aqui, não é a questão. Ele fez e sobreviveu. Mas depois de cinco dias já não aguentava mais. Iguana, água e a sensação de que podia estar a 300 metros da civilização. Teve o delírio louco de ter ouvido o canto de uma sereia cantando bossa nova e estava acordado. Dormindo, era ainda pior. Via a imagem de uma linda mulher morena, grávida, que, de repente, apontava um dedo para ele e, desse dedo, saía um raio que o atingia bem na virilha, arrancando-lhe o mais feio grito. Não conseguia dormir, essa era a verdade. E, quando dormia, mesmo que pouco, acordava sendo arremessado da areia por alguma força desconhecida. Começou a desenvolver ansiedade e pânico. Ficava acordado até não conseguir mais, caía no sono e era enxotado da terra. Tinha que sair dali. Estava se tornando muito complicado permanecer naquele ponto.

 

Por que não entrava naquela mata? Era covarde? Iria tentar. Vencer o medo. Olhou para dentro, o mais distante que podia ver, e sentiu um mau pressentimento. Era como se o destino mais terrível estivesse por ali. Mas ele já não tivera o destino mais terrível? O que podia ser pior que aquilo?

 

Pois ele foi. Chegou o mais longe que tinha ido — os 20 metros —, respirou e foi além. O fato é que, mal começara, 300 metros tinha caminhado, e ele avistou a coisa mais inesperada. Uma caverna. Parou, olhou, espiou e quis entrar. Era alguma coisa, alguma sutileza da caverna, talvez um aroma. Que o fazia querer entrar. Foi adentrando lentamente, a luz ficando pouca, até virar penumbra, até se tornar só uma abertura lá longe. Foi quando ele se deu conta do que estava fazendo. Estava se desviando do plano. Encontrar a humanidade. Devia voltar.

 

Mas aí foi que aconteceu: sentiu uma mordida na sua mão, uma dor absurda, a luta para ver o que era que tinha feito aquilo, o desespero... E ele gritou, quase uivou. Conseguiu achar a saída após vários tropeços e, sempre correndo, quando viu, já estava no poço.

 

A mão! Faltavam-lhe dois dedos. Logo da mão boa... Que porcaria! Que droga! Não podia acreditar. Saía muito sangue. Ele a enrolou no xale e apertou com força. Não conseguiu deixar de soltar mais um grito. Uivo. Começou a passar mal até que se estirou no chão, inconsciente.

 

Foi catapultado no outro dia e com raiva. A excursão fora um desastre. Ele não sabia o que fazer. Aquilo ia gangrenar, apodrecer. Precisava ir atrás de cidade. Apertou o xale, pegou o boné, os óculos e foi. Ficou aliviado ao perceber que não estava tonto. Na verdade, sentia-se invadido por um inusitado vigor.

 

Pois então, quando viu, estava em frente à caverna. Só que ele jurava ter tomado outro caminho... E tinha algo, um aconchego, um fascínio... Ele sentiu a enorme necessidade de saber o que tinha ficado com um teco da sua mão. O que quer que tivesse sido era excelente caçador, não fizera ruído algum. Quem fizera fora Euclides. Aquele uivo não lhe saía da cabeça. Como se ele já tivesse ouvido antes. Seu próprio uivo. O mesmo do avião. Talvez fosse uma memória ancestral. Achou estranho que ainda quisesse entrar. A coisa mais estúpida a se fazer era exatamente a que ele estava prestes a fazer. A caverna era tão convidativa... Pois entrou.

 

E foi ficando escuro, escuro. Até que ele só via um pontinho de luz ao longe. E aconteceu de novo. Dessa vez foi mordido na barriga. Arrancou-se um pedaço de carne. Gritou, uivou, se urinou, correu para o poço e constatou que, embora saísse algum sangue, não tinha sido profundo. Catou um iguana, assou e comeu. Com água.

 

E, agora, só conseguia pensar na caverna. Pensava nela quase vidrado! Que diabo de caverna seria aquela? Tão... magnífica! Magnífica? Era o inferno! Mas sim, era majestosa. Tinha um não-sei-quê, um lirismo...

 

Encasquetou que tinha que matar a criatura, sem perceber o absurdo que era ele sequer considerar voltar ali. Pois bem, mas como? Ideia! Colocou uma pedra na ponta de um toco de madeira e atou com os cadarços e o xale, com muita dificuldade.

 

Aí, o nome do artista ficou exposto. Euclides, curioso, leu. Mas sentiu algo muito estranho. Nem com muito esforço conseguiria pronunciar aquele nome, aquela palavra simples... Parecia a coisa mais improvável de se dizer, até de se pensar. E o nome só podia ser brasileiro. O mais fino artesão de Lisboa era um indígena brasileiro? Agora, se lembrava do desenho bordado. Um homem flutuando. Um espírito, um fantasma? Que arte era aquela?... Por que achara aquilo tão lindo? A ponto de lograr o perdão da mãe? Quem era sua mãe? Ela estava magoada com ele... Mas por quê?

 

Quando sentiu que seu tacape estava seguro, começou a se deslocar rumo à caverna. Olhou o iguana no tronco de sempre. Não importava quantos já tivesse pego, sempre aparecia um novo ali, no mesmo lugar. Aproximou-se da caverna, olhou, espiou e entrou.

 

Nem tinha ficado totalmente escuro quando ele sentiu, no calcanhar, a mordida. Gritou. Lutou, girou seu tacape cego por todo lado, com tudo que tinha. Com força, veloz, para baixo, para o lado.

 

Até que sentiu que atingira algo com força e ouviu o som da coisa caindo no chão. Pegara? Matara? Euclides ainda sacudiu a marreta para todo lado, tentou buscar coisa no chão, não encontrou. Decidiu erguer seu taco e experimentar uma postura defensiva. E sentiu outra mordida, no peito. Uivou alto. A dor era insuportável. Mal pôde correr, mas de alguma forma conseguiu atingir o exterior da caverna. Caminhou com muita dificuldade até o poço. Lavou as feridas. Bem profundas. Doía muito, mas conseguia andar.

 

Dessa vez Euclides nem esperou a dor passar. Nem sentiu quando já estava na boca da caverna. Ele não percebeu que estava completamente fascinado, dominado por ela. Dessa vez não levaria nada. Desfez o tacape e deixou tudo ali no chão: a pedra, o toco e o xale. Até os óculos. Entrou na caverna sem medo. Sem nada. Quase nu. Apenas com seu boné vermelho e preto. E seu membro sexual decepado. O havia perdido em uma ocasião ainda misteriosa. Euclides não tinha pênis e não lembrava como nem quando tinha perdido.

 

Dessa vez teve que entrar mais ainda, de modo que não via mais a entrada. Estava no completo breu. A mordida, dessa vez, foi nas costas. Mas teve uma coisa: ele não gritou, não deu um pio. Mas, ainda assim, ouviu o seu grito vindo de longe. O seu mesmo grito, seu uivo. Alguém o soltara por ele. Mas não pôde pensar muito no assunto, perdeu os sentidos, rapidamente.

 

A primeira coisa que ouviu foi o crepitar do fogo. Uma fogueira. Abriu os olhos e, lentamente, foi discernindo as figuras que a cercavam. Ele estava estirado no chão, a alguns passos de distância. Ao redor de uma fogueira, uma mulher muito velha, um homem sorridente, sem uma das pernas, um homem negro de branco, um homem branco de terno negro, um homenzinho peludo, um casal belíssimo de índios, uma cobra maior do que ele imaginava possível, com dois grandes olhos de mistério e dor, e dois cachorros gigantescos. Ninguém olhou para ele, conversavam alegremente. Sentia que estava bem dentro da caverna. Via algumas pinturas rupestres, provavelmente de origem muito antiga. Euclides era funcionário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nunca ouvira falar naquela caverna. Mas, também, talvez o avião não tivesse chegado ao Brasil. Talvez estivesse no meio do Atlântico.

As figuras desenhadas eram estranhas. Quando conseguiu enxergar melhor, viu carros, figuras monstruosas, aviões, barcos. E três pés interligados pelo calcanhar. Ficou fascinado por esta última pintura. Parecia antiga, mas era muito realista para ser milenar.Nem reparou quando alguém se aproximou.

 

— É, é ele, sim. — Sorriu o homem de preto.

 

— Claro que é, foi perfeito — sussurrou a índia.

 

— O quê? — perguntou Euclides.

 

Lá longe ouviu-se um longo e desesperado grito

 

.— Esse grito é meu! — Algo o deixava extremamente contrariado.

 

— Não é mais — o homem falou, suspirando. — Não é mais seu. Mas você poderá vê-lo toda noite.

 

— De quem estão falando? Do xale? O que será dele? — Euclides não compreendia.

 

— Vai berrar, ora! Vai bradar pela eternidade. — A voz do homem de preto trazia uma estranha segurança a Euclides. Mas seu meio sorriso era agridoce.

 

— Onde ele está? O que grita por mim? — Euclides procurava entender.

 

— Sabe, você esqueceu suas coisas na entrada da gruta — disse a velha, com um dos olhos fechado e a língua meio de fora.

 

E Euclides lembrou-se da figura fantasmagórica desenhada no seu xale. Ganhara vida? Gritava?

 

— Pois toda noite vai poder tê-las — falou o homem de preto.

 

— O que vai ser de mim? — implorou Euclides.

 

— Você é o miserável Corpo Seco.

 

— O homem de terno preto parecia desprezar Euclides.

 

— Mas o que é Corpo Seco? Com essas feridas, eu vou morrer!

 

— A gente não morre, não. A gente não morre nunca! Quase nunca... — disse a velha, soltando uma risada aguda.

 

E o cão arrancou-lhe mais um pedaço.Euclides nada sentiu. Mas lá longe alguma coisa soltou um longo uivo.

 

Continua...

Contos Medonhos e Desarranjados, Opus 2

E o segundo volume já está avançado.

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